Eleitores de dez estados dos Estados Unidos rejeitaram projetos de instalação de grandes centros de processamento de dados durante as eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3). Dos 41 plebiscitos locais submetidos ao voto popular na data, 40 terminaram com resultado desfavorável às grandes empresas de tecnologia.
Na sexta-feira (6), o índice Nasdaq Composite operou em queda de 5,5%, acompanhando o recuo global nas ações do setor.
A reação nas urnas reflete a insatisfação de comunidades locais com o encarecimento das tarifas de água e de energia elétrica, insumos consumidos em larga escala pelas infraestruturas voltadas à inteligência artificial (IA). Ao longo de 2026, estados norte-americanos agendaram 50 consultas populares sobre o tema, impulsionadas sobretudo por petições de moradores.
Entre as 47 votações já concluídas no ano, apenas uma aprovou o avanço dessas instalações. A maioria das medidas estabelece proibições ou limites para unidades com demanda igual ou superior a 25 megawatts, porte característico de estruturas de hiperescala.
Dados compilados pela organização não governamental Ballotpedia indicam que os índices de rejeição superaram 60% na maior parte das consultas. Na cidade de Ottawa, no estado do Kansas, a restrição a centros com consumo acima de 25 megawatts foi aprovada por 72% dos votantes. Paralelamente, uma pesquisa de boca de urna da emissora NBC News apontou que 76% dos entrevistados se opõem à construção de data centers em suas regiões e 57% avaliam que a inteligência artificial trará mais prejuízos do que benefícios à sociedade.
O pleito também alterou a composição do Congresso dos Estados Unidos, onde o partido do presidente Donald Trump perdeu a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado para os democratas. Enquanto o governo Trump defendia um modelo de autorregulação anunciado em setembro e rejeitava regras que limitassem investimentos, parlamentares democratas fizeram campanha prometendo maior fiscalização sobre o setor.
Segundo o diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor da Universidade de Brasília (UnB), André Roncaglia, em declaração à Agência Brasil, o desfecho eleitoral enfraqueceu a base política aliada às gigantes tecnológicas e sinalizou ao mercado financeiro que o ambiente desregulamentado nos Estados Unidos passará por mudanças.
Para o economista, a queda nas bolsas reflete uma correção esperada diante da perspectiva de arbitragem regulatória.
O diretor-executivo da Brazil Office Alliance, Paulo Abraão, ressaltou que a pauta tecnológica foi considerada importante ou decisiva por 56% do eleitorado, atravessando divisões partidárias tradicionais ao exigir controle democrático sobre os custos sociais e ambientais da expansão digital. Ele avalia que o tema deverá permanecer central na disputa presidencial de 2028.
Nos próximos passos no Legislativo, a expectativa é de apresentação de projetos democratas voltados à proteção do consumidor e à imposição de limites ao setor. A deputada eleita pelo Arizona, Yassmin Ansari, declarou que a prioridade imediata da legenda deve incluir uma pausa no avanço de sistemas de IA avançada, a regulamentação da indústria e a proibição da chamada superinteligência artificial.
Além disso, outros três plebiscitos estaduais sobre data centers seguem programados para dezembro de 2026.