A mostra combina produções contemporâneas e obras do acervo da instituição para revisitar a história de oito mulheres que atuaram na luta contra a escravidão, propondo uma discussão sobre a persistência do racismo contra mulheres negras no país.

As oito homenageadas na exposição são Anastácia, Aqualtune, Luiza Mahin (mãe de Luiz Gama), a pescadora Maria Felipa, a escritora Maria Firmina dos Reis (autora do primeiro romance abolicionista), Adelina (informante do movimento abolicionista no Maranhão), Esperança Garcia e Maria Tomásia, única mulher branca do grupo e fundadora de uma sociedade feminina contra a escravidão.

Esperança Garcia, reconhecida pela Ordem dos Advogados do Brasil como a primeira advogada do país, enviou em 6 de setembro de 1770 uma carta às autoridades denunciando violências, documento considerado uma espécie de pedido de habeas corpus.

Entre os trabalhos expostos, a artista visual Mônica Ventura apresenta uma escultura com um balaio sobre um pilar de tijolos de barro, destacando o cesto como símbolo de emancipação econômica das mulheres negras na venda de alimentos nos centros urbanos. Já Thaís Iroko retrata Anastácia cega em uma ilustração para abordar o silenciamento histórico da personagem, tradicionalmente representada com uma máscara de flandres.

Outra figura destacada é Aqualtune, avó de Zumbi e líder no Quilombo dos Palmares, retratada por Guilhermina Augusti tanto como princesa do Congo com conhecimentos de guerra quanto como cativa cercada por búzios e adinkras. No teto do espaço expositivo, a obra Tetas que deram de mamar ao mundo, de Lidia Lisboa, exibe um seio de crochê em alusão às amas de leite escravizadas e à realidade das trabalhadoras domésticas e babás no Brasil.

De acordo com Ana Carla Soler, o projeto questiona a percepção de que a escravidão foi superada apenas com a assinatura da Lei Áurea em 1888 e busca incentivar o debate pela construção de uma sociedade igualitária. As obras sobre as abolicionistas surgiram de uma encomenda feita ao Instituto Artistas Latinas por um colecionador preocupado com a baixa representatividade de artistas negras em seu acervo.

Após a conclusão das peças, o instituto articulou parcerias com espaços culturais para colocar os trabalhos em diálogo com os acervos locais e estimular as instituições a avaliarem a presença de artistas negras em suas coleções.