A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz tornou-se, em 2026, a primeira mulher negra a conquistar o Prêmio Jabuti na categoria Romance, com a obra Meridiana. Em entrevista à Agência Brasil, a autora avaliou que o fato de essa conquista inédita ocorrer apenas na 68ª edição do prêmio literário deve provocar reflexão sobre a ausência histórica de outras escritoras negras entre os vencedores da categoria, mencionando nomes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves.
O romance premiado retrata a vivência de uma família negra moradora de uma favela que procura alcançar ascensão social. Além do Jabuti de 2026, Meridiana já havia rendido à escritora o Prêmio Guimarães Rosa de 2025, concedido pela Academia Brasileira de Letras na categoria Ficção. Anteriormente, em 2022, ela havia vencido seu primeiro Jabuti na categoria Contos com a publicação de A vestida.
A transição de Eliana para a ficção ocorreu após mais de duas décadas atuando como jornalista e assessora de comunicação na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Segundo relatou à Agência Brasil, a rotina contínua de trabalho sem folgas nos fins de semana levou a um quadro de esgotamento profissional (burnout) entre 2009 e 2010.
O afastamento motivou a autora a retomar o desejo de infância de dedicar-se à literatura, impulsionado pela tradição oral de seu pai e de suas avós.
Durante cerca de quase seis anos, ela investigou a trajetória de seus próprios antepassados desde o século XIX para compor seu romance de estreia, Água de Barrela. O levantamento reuniu relatos de familiares — incluindo uma tia-avó de anos —, fotografias e registros guardados por uma madrinha, como o título de eleitor de seu trisavô, Adônis Tosta, e uma carta ligada à família Tosta, que, segundo historiadores citados pela autora, chegou a manter quase pessoas escravizadas em fazendas de Cachoeira e Santo Amaro, no Recôncavo da Bahia.
A apuração incluiu consultas documentais no Arquivo Nacional e em acervos de Salvador e Cachoeira.
Concluído em 2015, Água de Barrela não encontrou editora inicialmente, mas conquistou o primeiro lugar na edição de estreia do Prêmio Literário Oliveira Silveira, promovido pela Fundação Cultural Palmares, resultado que viabilizou sua carreira literária. Desde então, a investigação sobre a história da população negra no Brasil e os impactos da escravidão e do racismo consolidou-se como eixo de sua produção, presente também em obras como O crime do Cais do Valongo.
Além da produção de livros, a jornalista apresentou o programa Trilha de Letras, exibido pela TV Brasil. Como próximo passo em sua carreira institucional, Eliana Alves Cruz tomará posse como integrante da Academia Carioca de Letras no dia 17 de novembro.
